No universo dinâmico da gestão de projetos, onde prazos, orçamentos e entregas dominam a narrativa cotidiana, emerge uma nova perspectiva: a de que liderar projetos exige mais do que domínio técnico — exige consciência ética e humana.
Os capítulos 3 e 4 da obra Gestão de Projetos: Fundamentos, Desafios e Investigação, de Jacinto Jardim, oferecem um mergulho preciso e necessário no tema.
No Capítulo 3, somos convidados a repensar o papel do gestor de projetos. Não mais como mero executor de tarefas ou controlador de cronogramas, mas como um profissional multifacetado, que une competências técnicas, soft skills, inteligência emocional e uma mentalidade estratégica. O perfil ideal é desenhado em camadas: liderança e gestão de equipas, comunicação eficaz, tomada de decisão sob pressão, domínio tecnológico e, sobretudo, capacidade de adaptação constante frente às transformações do mundo digital.
O destaque para instrumentos como o Inventário do Perfil do Gestor de Projetos (ipGP-21) aponta para a valorização de metodologias que tornam a autoavaliação e o desenvolvimento contínuo parte intrínseca da prática profissional.
O ipGP-21 nasceu da necessidade de sistematizar e mensurar as competências essenciais à atuação de gestores de projetos contemporâneos, especialmente em contextos complexos e dinâmicos. O modelo segue metodologias de construção de escalas como as de DeVellis & Thorpe (2021), Hill & Hill (2009) e Saunders et al. (2023), combinando fundamentos teóricos com a prática profissional.
Jacinto Jardim desenvolveu o ipGP-21 como parte de sua proposta de integrar pesquisa acadêmica, diagnóstico organizacional e desenvolvimento de competências, colocando-o como ferramenta útil não só para gestores, mas também para pesquisadores e consultores em gestão de projetos.
O gestor ideal não é apenas eficaz; ele é reflexivo, analítico e aberto ao aprendizado permanente.
Já o Capítulo 4 eleva ainda mais a discussão ao colocar a liderança ética como eixo estruturante da gestão de projetos no século XXI. Em um tempo marcado por incertezas, avanços tecnológicos vertiginosos e uma crescente exigência por responsabilidade social, ser líder é também ser guardião dos valores humanos. Integridade, transparência, responsabilidade, respeito e equidade deixam de ser meras aspirações e passam a ser princípios operacionais.
O capítulo nos conduz por diferentes tipologias de liderança — transformacional, autêntica, colaborativa e proativa — até consolidar a ideia de que o verdadeiro diferencial competitivo das organizações está na ética aplicada à prática cotidiana da liderança.
Cada uma dessas tipologias de liderança reflete uma concepção distinta de poder, influência e sentido. A liderança transformacional, por exemplo, parte do princípio de que o líder é capaz de mobilizar as pessoas em torno de uma visão inspiradora, transcendendo interesses individuais em prol do coletivo — como defendido por Bass e Riggio (2006), esse modelo estimula a inovação, a motivação intrínseca e o crescimento pessoal dos liderados. Já a liderança autêntica, profundamente enraizada na ética aristotélica, enfatiza a coerência entre valores pessoais e ações públicas: o líder se conhece, age com integridade e inspira confiança por meio de sua veracidade. A liderança colaborativa, por sua vez, valoriza a construção horizontal de poder, onde o saber é distribuído e as decisões são fruto de escuta ativa e cocriação, como propõem Ansell & Gash (2008). Por fim, a liderança proativa envolve a antecipação dos desafios e a atuação estratégica e empática em contextos de incerteza, combinando organização, motivação e supervisão crítica. Em todas elas, está presente o ideal filosófico de que liderar é, antes de tudo, um exercício ético de cuidado com o outro e com o futuro que se constrói coletivamente.
Estudos de caso e escalas como a ELE-20 (Escala de Liderança Ética) comprovam que projetos bem-sucedidos não se medem apenas por KPIs, mas também pela forma como se alinham aos valores compartilhados com as suas partes interessadas.
Frisando que a ELE-20 (Escala de Liderança Ética) é uma ferramenta que foi desenvolvida por Jacinto Jardim com o objetivo de avaliar o grau de liderança ética praticada por líderes em ambientes organizacionais e projetos.
Ela é um instrumento de avaliação psicométrica composto por 20 itens, organizados em cinco dimensões fundamentais da liderança ética. Cada item deve ser avaliado em uma escala de 1 (discordo totalmente) a 5 (concordo totalmente), com base na percepção do respondente sobre o comportamento do(a) líder avaliado(a).
Abaixo as dimensões avaliadas pela ELE-20:
1. Integridade (itens 1 a 4):
Avalia a coerência entre discurso e prática do líder, sua adesão a princípios éticos mesmo sob pressão, e sua honestidade em decisões e ações.
2. Justiça (itens 5 a 8):
Refere-se à imparcialidade na tomada de decisões, avaliação baseada em mérito e consideração das diferentes partes interessadas.
3. Respeito (itens 9 a 12):
Mede a capacidade do líder de valorizar a diversidade, ouvir ativamente e manter um ambiente inclusivo e colaborativo.
4. Responsabilidade (itens 13 a 16):
Examina o grau em que o líder assume os resultados das ações de sua equipe, dá feedback construtivo e aprende com os erros.
5. Transparência (itens 17 a 20):
Observa a clareza com que o líder comunica informações, compartilha decisões e promove o diálogo aberto.
Ao final dessa leitura, o que se evidencia é que liderar projetos, hoje, requer mais do que métodos e frameworks. Requer visão holística, sensibilidade ética e um compromisso profundo com a construção de organizações mais humanas, sustentáveis e inovadoras.
Porque, no fim, todo projeto é um reflexo de quem o lidera. E o mundo precisa, mais do que nunca, de líderes que liderem com valores.

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